reflexão
Acho que me esqueci de mim.
"Acordei, vesti-me com uma pressa danada, nem me olhei bem ao espelho. Comi meio a dormir meio acordada. Comi o de sempre, algo com café, que é para dar energia para enfrentar o dia que vem aí. Olho para o relógio vezes infinitas, não vá o tempo fugir sem eu dar por ela - e foge. Pego na bagagem de todos os dias, que me pesa incessantemente, para além dos pesos que já carrego dentro de mim, e saio para a manhã nua e calma, mas que eu não tempo para sentir. Nem dou conta se está frio ou se não está frio, mesmo se estiver, tenho tanta pressa que me esqueço. Tenho que apanhar os transportes para não chegar atrasada, tenho que me fazer ao caminho para não apanhar trânsito de outros tantos que estão como eu. Dou o bom dia a toda a gente, com o sorriso matinal que consigo arranjar. Sujeito-me às minhas tarefas de todos os dias, mesmo que não goste do que faça, já nem sei distinguir. Tento ser amável para toda a gente, mesmo que esteja de mau humor e só me apeteça hibernar, eu esforço-me. Ando numa luta contra o relógio, como sem dar muita importância ao que realmente como, e volto para outra volta de tarefas. Ser amável. Sorrir. Olhar para o relógio. Saio já à tardinha, e reparo que só o facto de me ter safado da parte chata de hoje já me mete mais alegre, e reparo que as outras pessoas também estão como eu. Chego a casa, e atiro o peso para cima do sofá. Permito-me parar por 5 minutos. Ok, agora está na hora de pensar o que vai ser o jantar. Preparo o jantar sem grandes pormenores, mais a discutir com os ingredientes do que a fazer um poema culinário. Sorrio para a minha família. Por vezes descarregamos uns nos outros, tal é o peso do dia a dia que ainda trazemos. A casa é sempre uma confusão, barulho aqui, barulho ali, televisão alta, luzes todas ligadas. Tomo um duche para aliviar um pouco a pressão que os dias me trazem, visto o pijama e mergulho na cama. Amanhã farei tudo novamente."
Esqueci-me de me namorar ao espelho, de fazer o meu pequeno-almoço preferido, de me permitir sentir a calma de cada manhã, de ser tão amável comigo como me esforço para ser com os outros. Esqueci-me do que é viver sem olhar para o relógio. De viver devagar. Esqueci-me de saborear cada refeição que ofereço ao meu corpo. Esqueci-me de me perguntar o que gostaria de fazer para ganhar a vida, no que gostaria de despender a minha energia. Esqueci-me de fazer qualquer ritual de relaxamento - tomar um banho quente, ler, dormitar, cozinhar com amor. Esqueci-me de viver o presente com a minha família. Esqueci-me.
Identificas-te com este texto? Também te esqueceste?
Maior parte das vezes - ou até na sua maioria - este mundo virtual serve como um escape à realidade, onde construímos uma imagem de nós próprios com base no positivo. Somente com base no positivo. Escondendo todas as outras adversidades que fazem parte, mas que escolhemos não mostrar. E é normal, ninguém tem que saber nada sobre a nossa vida. Mostramos o que escolhemos e o que nos faz sentido. Mas tudo isto depois faz com que as plataformas digitais sejam consumidas com base em vidas recheadas de positivismo, cheias de coisas boas, sem coisas más à vista. Não porque elas não existem, mas porque ninguém escolhe mostrar. Mas todos nós assumimos que a pessoa X tem uma vida perfeita, porque só tem fotografias de paisagens magníficas, pequenos-almoços dignos de uma alma curada e de sítios onde nunca estivemos antes. Assumimos que os outros estão no topo, e que estamos a ficar para trás. Assumimos que a vida tem que ser assim, como todos mostram. Esquecemo-nos que todos estão a fazer o que nós estamos a fazer: a partilhar coisas boas e bonitos, um registo de momentos felizes e bons, e a não querer mostrar as adversidade que fazem parte e existem. É só e apenas isto.
Nós apenas nos esquecemos e assumimos que temos que ter tudo o mais positivo e bonito e melhor possível. Porque parece que é o que todos estão a fazer, mas não é. O teu problema também é o dos outros, não caias no erro de pensar que és o único com esse problema que te atormenta porque, acredita, não és. Mas escolhes não mostrar e criar um registo de coisas boas, partilhar coisas boas - e é isso que toda a gente faz, mas além disso que toda a gente mostra existe muito mais, existe a vida, que tem um equilíbrio fantástico de coisas boas e coisas más. Não te esqueças.
Quando é que abrandas? Como é que sabes quando tens que abrandar? Qual foi a última vez que te permitiste abrandar?
O nosso corpo, este nosso templo desde sempre, dá-nos sinais preciosos e que nem sempre conseguimos ver e perceber. O facto de andarmos fatigados, com dores de cabeça, com dores musculares, sem conseguir pensar, são sinais dos mais simples e comuns de que precisamos de abrandar e respirar por um bocado. De apanhar um pouco de sol e de fechar os olhos e sentir o vento. Às vezes é só isso.
Muitas das vezes ficamos com um certo sentimento de culpa por querermos cuidar de nós, por querermos prescindir de pelo menos 5 minutos do nosso dia para nos voltarmos para nós e fazermos o que sentimos que temos que fazer, em especial as mães. Mas sabem que mais? Se não abrandarmos, não estamos a respeitar a nossa própria vontade, nos quais temos que ser os primeiros a respeitá-la, não estaremos a recarregar toda a energia que desgastamos durante horas e horas, dias e dias, não estaremos a dar ouvidos aos sinais que o nosso corpo nos transmite, não estaremos assim nunca no nosso melhor para que enfrentemos o mundo com a energia revitalizada, com o nosso eu intenso de boas energias, vontade e alegria.
O nosso corpo, o nosso templo, dá-nos todos os sinais acerca do que fazer a seguir. E isso é maravilhoso. Vamos fazer um esforço para nos reconectarmos com ele? Com a nossa essência. Com aquilo que realmente precisamos para estarmos bem.
A sociedade impôs o padrão de que temos que trabalhar durante X horas diárias, sem parar. Porque se pararmos é sinal de preguiça. Não é. E não trabalharmos durante as horas implícitas ou termos um emprego flexível também não é preguiça. Esticarmo-nos no sofá, dormir até mais tarde, trocar as tarefas domésticas por uma tarde de leitura, entre tantas outras coisas que fazemos e que somos todos julgados a seguir, não é preguiça! Porque é que temos que esperar pelo fim de semana para descansar? Porque é que não podemos fazê-lo todos os dias?
Aproveita e reconecta-te com a tua essência, com a tua vontade, com o teu corpo. Ouve os sinais que te são transmitidos todos os dias e que tens ignorado. Abranda um pouco. Está tudo bem. Todos precisamos.
Existem dois tipos de pessoas:
Aquelas que acreditam que os sonhos são apenas sonhos, que é e sempre será algo inatingível. Que mesmo que se esforcem para tal, ao mínimo obstáculo assumem que não é para elas aquele pensar tão grande. Que dizem que os sonhos é para quem tem sorte. Aquelas que soltam suspiros deitadas na cama a olhar para o teto, a pensar quão boa seria a vida se o sonho lhes batesse à porta. Que desejam e desejam e desejam, mas que no fundo não acreditam naquilo que elas próprias anseiam.
E há aquelas que são movidas pelos sonhos. Que por muito mal que a vida pareça correr, há sempre um reforço positivo por se crer que se está mais perto daquilo que acreditamos. Que acreditam mais nelas próprias do que em qualquer outra pessoa. Aquelas que não dão ouvidos a quem não acredita que os sonhos são para ser realizados. Que torcem pelos seus próprios sonhos e pelos sonhos dos outros. Aquelas que acreditam que podem mudar o mundo. Que são felizes apenas por saber que vão viver grandes feitos e grandes experiências, tão grandes do tamanho dos seus sonhos.
Qual das duas és tu?
Querida Joana,
Hoje acordámos sem despertadores, às horas que nos apeteceu, bem... Com a ajuda da Gaia a fazer asneiras pela casa. Almoçámos a pizza do jantar do dia anterior e enfrentámos o tempo nublado a cheirar a chuva pelo mato dentro de camisolas de alças e de trelas nas mãos com os cães. Andámos, andámos e vimos sítios dignos de duendes e fadas. Entretanto choveu e nós continuámos de camisolas de alças e a andar pela serra fora. Fomos descansar um pouco a casa antes de ir ao rio. Foi a primeira vez que a Gaia teve contacto com a água. Foi bom aproveitar o sol nos nossos corpos despidos à beira rio. Descalços andámos por cima de pontes de pedras pequenas e redondas, de corpos arrepiados entrámos pelas águas geladas de um rio que ainda não fora aquecido pelo sol. E aí descobri que uma das minhas sensações preferidas é ter o corpo molhado pelas águas geladas de um rio. Voltámos descalços para o carro e fomos jantar a um dos nossos restaurantes preferidos, num salão só para nós, deixámos passar o tempo e fomos deixar os cães a casa. Fizemo-nos à estrada e fomos mergulhar no filme mágico que conta a história de Elton Jonh. De volta para casa, eu adormeci mais uma vez e o João permaneceu acordado pela estrada fora. Ao deitar nos lençóis ainda sentia todo o meu corpo inundado daquela frescura a saber a rio e a felicidade da mais pura e verdadeira.
Muitas vezes desejo que a vida seja esta felicidade de estar de corpo gelado e molhado pelas águas dos rios e cascatas.
Com um amor desmedido pela vida, Joana
20 de Junho de 2019.
hoje passei o dia a ler.
Já me tinha esquecido do que isso é, parar um bocado e refugiar-me num livro. Embora toda a gente diga que não ando a fazer nada, não é verdade, tenho trabalhado todos os dias pela minha marca e no meu trabalho. É difícil não darmos ouvidos ao que os outros dizem mas, afinal, ninguém tem nada a ver com o nosso caminho nem tem nada a dizer sobre o que não lhes diz respeito. E o que sabem os outros do que sentimos e do quão cansados estamos ao ponto de pararmos um pouco e ler durante horas a fio, envolvidos na luz de fim de tarde?
Prende-me muito e limita-me o facto de não conseguir fazer o que a minha alma pede e anseia sem que não seja julgada e constantemente bombardeada de opiniões alheias. Como grandes mãos que me envolvem o pescoço e me apertam sem que possa respirar. Como se ver o mundo com os nossos próprios olhos fosse blasfêmia, e querer fazer valer os meus sonhos e ambições mais saídos da caixa fosse coisa pior ainda.
E, como se não bastasse, abrandar quando o meu corpo me pede parece ser coisa de gente preguiçosa, trabalhar para nós e por nós sem que ninguém veja o esforço e tudo ao pormenor faz com que seja reconhecido como trabalho nulo. Mas não faz mal, enquanto os outros vivem de trabalho, não se respeitam a eles próprios nem o ritmo que o corpo pede, vivem de sonhos que esvoaçam pela mente e que eles sopram para longe, convencidos de que as coisas grandes estão guardadas para quem tem sorte.
Queridos seres humanos que me lêem, a vida pertence aos grandes sonhadores que acreditam neles próprios e que constroem um mundo que idealizam. É possível viver a vida dos nossos sonhos, se nos direcionarmos para ela, não existem pessoas com sorte, isso é discurso de quem fica sentado a ver a vida passar e que, no fim das contas, não vive. Ah! E não se esqueçam de ignorar por completo o que os outros dizem ou acham. O que fazemos ou deixamos de fazer, o que gostamos ou deixamos de gostar, o que sentimos e respeitamos tem apenas a ver connosco. O resto são opiniões alheias e caídas do ar.
"Porque as pessoas que são loucas o suficiente para achar que podem mudar o mundo são as que, de facto, realmente mudam."

Que fique bem claro isto: sou uma pessoa sensível, daquelas que quando vê sangue cai para o lado e que fica com pele de galinha a ouvir Freddy Mercury. Sou uma Maria Madalena, chorona com tudo, coisas felizes e menos boas também, desde filmes (não têm que ser necessariamente românticos) a abraços que duram tanto como uma brisa de Verão.
Vocês estão a ver o que quero dizer.
Desde que comecei a namorar com a pessoa que anda hoje comigo de mão dada para todo o lado, tenho derramado lágrimas, tenho crescido muito e tenho visto um mundo que sempre existiu mas que me estava oculto.
O meu namorado é uma pessoa tão ou mais sensível quanto eu - embora eu exagere e o demonstre (muito) - e tem um vínculo muito forte para com a natureza, foi com ele que aprendi a mexer na terra, a conviver com outros seres, a conhecer outros lugares, a lidar e respeitar a vida natural. O João está ligado à caça, à agricultura e à criação de animais desde cedo, foi aprendendo com os avós no Alentejo, e acho que a alma dele pertence a este vínculo que tem com a Mãe Terra.
Eu sei que este termo - a caça - ainda não é aceite por aqui, aliás, não é compreendido. No início houve uma luta interna em mim por ter uma pessoa de quem gostava tanto mas que, ao fim e ao cabo, estava ligado à caça. Com toda a paciência e amor que teve, o João explicou-me e fez-me ver que não devo julgar o que não compreendo, devo questionar-me o porquê de existir tal feito e, depois, tirar as minhas conclusões. Eis que começo a interiorizar um dos mantras que trago comigo até hoje: Não odeies o que não compreendes.
Explicou-me que os verdadeiros caçadores, são quem fazem com que os ecossistemas fiquem em equilíbrio, são respeitadores ao ponto de serem estudados todos os habitats, períodos de acasalamento e outros tantos, idade média de cada ser vivo e toda uma gama de informações. Ele explicou-me que há caçadores que transportam animais de um lugar para outro, para que haja um "repovoamento" daquela espécie, que monitorizam sempre a vida selvagem em prol de todo o ecossistema, para que este viva em equilíbrio. Há caçadores e caçadores, há os que matam por desporto, e os que têm respeito pela vida e pela natureza. Decerto já viram no jornal de notícias centenas de agricultores que ficaram sem o gado, sem o seu único sustento, devido a javalis, saca-rabos, raposas, lobos e outros predadores. Tudo isto porque a caça se tornou proibida. E, para deixar de existir esta monitorização, para deixar viver uns, outros tantos morrem (muitos mais). Mas isto é um modo de ver que apenas quem vive do campo aprende a ter, e quem se questiona e interioza isto a fundo, ao fim de algum tempo, consegue ter. Não estou aqui a tentar impingir este modo de ver as coisas, estou apenas a contar-vos a minha aprendizagem, o mundo oculto que estava à minha frente e que eu não sabia e não compreendia.
Esta tarde, uma colega da minha mãe contou-me que o peixinho lá de casa morreu e que deu com a filha mais nova a chorar na casa de banho porque não conseguia meter o peixe pela sanita abaixo. Eu automaticamente pensei: caramba, eu era assim! Era. Ao longo destes anos encarei a morte de tantos seres por ter começado a conviver com eles. Por cada pintainho que morria numa ninhada (e morrem muitos, é a lei da sobrevivência, apenas os mais fortes sobrevivem) eu chorava e não conseguia enterrá-los. Hoje, já acompanhei tantos nascimentos que sei que, de dez pintos talvez fiquem uns cinco. Já vi todas as nossas galinhas serem mortas devido a raposas e cães selvagens, e muitas delas tivemos que as abater por não as conseguirmos salvar. Já cuidamos de galinhas que estiveram à beira da morte, mas que conseguimos curá-las com dedicação, paciência e tempo.
Todo este ciclo da vida natural é tão cru e tão nu que parece que nos tira muitos fôlegos até começarmos a entender que é assim. Que a morte existe e que a vida também.
Todo este ciclo existe, é cru mas não é nu para toda a gente. É-nos omitido este mundo oculto. Que tem tanto de belo como de horripilento, mas que é natural.


Gostava que acreditassem. Nelas mesmas primeiro, depois, no resto. Gostava que usassem a voz para dizer um "NÃO" bem alto à gritaria desnecessária, a quem as trata com desdém, a quem não lhes dá amor, a quem nada acrescenta às suas vidas. Gostava que entendessem que quem tem que gostar de as ver ao espelho são elas, que quem tem que as respeitar primeiro e acima de tudo são elas, que quem tem que entender o seu tempo, o seu ritmo, e respeitar as suas vontades são elas também. Gostava que, de uma vez por todas, percebessem que merecem todo o amor do mundo, que se é para estar com alguém que seja alguém que lhes dê as coisas mais bonitas que alguma vez imaginaram e, se ninguém o fizer, elas próprias estarão bem sozinhas e de amor-próprio gigante no peito.
Gostava que se amassem primeiro e o verbalizassem para elas próprias, e assim descobrirem que amor atrai amor. Que descobrissem que assim o mundo é muito mais bonito.


Às vezes só me apetece ficar escondida, sabem? Num daqueles sítios em que parece que o mundo acabou lá fora e onde nem dão pela nossa falta. Num sítio onde sentimos que ali passamos despercebidos e podemos ficar até ganharmos coragem para enfrentarmos o mundo outra vez. Sinto isto tantas vezes. Às vezes apetece-me gritar que a vida é bonita e andar por aí de sorriso exposto a ver se contagio alguém, outras vezes parece que não há mais nada para além da rotina, parece que não vou conseguir superar a situação, que estou a ser engolida pelo que está a acontecer à minha volta, até tenho a sensação de que a vida está a andar depressa demais para mim e, por mais que queira, não consigo mexer-me, e então só me apetece esconder. Sinto-me tão sozinha que o que me apetece é estar mesmo sozinha.
Eu sei que há dias assim, dias maus e dias bons. E dias maus para reconhecer os bons. Com isso vem sempre uma dose de exagero. Ou estamos radiantes de felicidade, ou estamos tremendamente infelizes. Também são assim? Parece que a vida só dá para ser vista da montanha russa mais radical e invariável que existe. E é com essa noção que muitas vezes penso "ok, os maus bocados parece que demoram, mas tal como o que é bom acaba depressa, o que é mau também há-de acabar", "agora estou mal, mas amanhã posso estar melhor, pode acontecer alguma coisa de bom", tal como chega a acontecer o contrário.


Tenho andado tão focada em mim, que pensei em partilhar os rituais que me têm curado aos poucos e me têm feito sentir muito mais em paz, muito mais eu. A batalha diária de construírmos o nosso ser interior, de nos livrarmos de qualquer energia que nos afeta, de qualquer toxicidade, de florescermos, não é algo que aconteça da noite para o dia, não é algo que dê frutos de um dia para o outro. É algo devagar e subtil, ao seu tempo, ao seu ritmo, como deve ser. Aprender a ser paciente, a ter equilíbrio, a calar o mundo e ouvir o eu, a ter calma e a saber respirar e sentir. No fundo aprendemos tudo outra vez, nascemos de novo.
Encaro isto como uma semente de uma flor bonita, a semente que coloco na terra é a da coragem e força de vontade de começar, é importante regá-la, todos os dias, com persistência, carinho, coragem uma vez mais. Não perder a calma e saber respirar é essencial. Não vamos conseguir estar aptos a enfrentar o mundo a toda a hora, e está tudo bem. Há alturas em que desabamos, outras em que só respiramos confiança. Faz parte do processo.

No fundo, tudo o que estou a aprender é a calar o mundo e a ouvir-me a mim. Acho que é o mais difícil. Somos influenciáveis, inconscientemente temos a necessidade de nos sentirmos aceites por entre as pessoas que nos rodeiam, o ser humano é mesmo assim. A família, os amigos e pessoas mais próximas também constroem o nosso ser, desde sempre, tudo o que somos devemo-lo, também, às pessoas que estão e que passam por nós, deixando aprendizagens boas ou más.
Muitas vezes achamos algo errado, questionamo-nos acerca de certa atitude ou ato ou sentimento. Mas, por as pessoas em redor o fazerem, o acharem correto, não determina de que tu, como pessoa individual, não tenhas opinião própria, mesmo que vá contra os princípios e ensinamentos que tiveste durante a vida inteira. É isto que é difícil, desfazeres-te de uma identidade que criaram para ti, por ainda não teres a autonomia de o fazeres sozinho, de o pensares por ti. É por isso que se diz que as pessoas crescem, porque deixam de depender dos outros, deixam de seguir os passos de alguém e começa a caminhar sozinhos, desenvolvem opinião própria e vontade própria.

Desde que me sinto crescer aos poucos, que me sinto presa ao que toda a gente acha, toda a gente diz, toda a gente pensa, toda a gente faz. Foi preciso ganhar muita coragem para enfrentar o mundo e querer crescer como deve ser, como eu quero, como eu penso, como eu acho. Tudo isto pode durar algum tempo, e realmente, quando não estamos bem, as coisas dão para o torto e a vida mostra-nos que, primeiro, a transformação vem de dentro.
Não podendo mudar algumas mentalidades em redor de mim, e respeitando-as como gostaria que respeitassem a minha, tenho aprendido a desprender-me de energias que me intoxicam, que me puxam para baixo, que me fazem virar costas ao caminho que pretendo seguir. Não é necessário gritaria desnecessária, nem gastos de energia a querer contrariar o outro, deixemos estar, entra por um ouvido e sai pelo outro, o orgulho não se deve sobrepor ao nosso bem estar interior. Somos muito mais. Daí dizer que, primeiro, calamos o mundo para nos ouvirmos e, depois, tudo se tornará mais claro.
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Sai um bocadinho daqui, do ecrã, da vida que não existe mas que se insiste e persiste tanto tempo e energia nela, que absurdamente se vai tornando mais e mais importante para o mundo.
Não passes tempo a ver stories cínicas sobre a vida dos outros, não estejas para aí a distribuir likes para encher o ego de alguém de nada. Como se o nosso coração transbordasse se tivermos o máximo de likes de todas as pessoas que existem num mundo que não existe. Pensar que há 10 anos os telemóveis não eram primordiais ao ponto de ser a primeira coisa a "não esquecer em casa" ao invés das chaves. Pensar que, há 20 anos, o que as pessoas faziam quando estavam aborrecidas ou apenas porque gostavam era ouvir música com um leitor de CDS portátil ou ler um livro mesmo que já o tenham lido milhentas vezes.
Pensar que hoje a nossa extensão como ser humano é o smartphone e toda a tecnologia que nos molda - e não, não nos une. Estamos cada vez mais sozinhos, frios, mecanizados. Mexer no telemóvel tornou-se um refúgio tão absurdo que parece crime não o ter, esquecer-me dele em casa, ou simplesmente não ligar nenhuma a esse aparelho que, apenas há uns anos atrás, nos era dispensável. Porquê agora? Porque é que isto se tornou tão valioso e rotineiro, tão automático procurar fazer tempo no telemóvel, quando o que realmente se faz é gastar o tempo. Com nada, na verdade.
Imaginando que, um dia viajamos para um sítio bonito e que, felizmente, não está tão avançado em termos tecnológicos, então ainda se vê a população ter um comportamento como há 20 anos atrás. Imaginando que, durante essa viagem bonita perdemos o telemóvel, por aí. Imaginando que, estando num sítio desprovido de tecnologia, não conseguirás comprar qualquer equipamento desse género. Imaginando que terás que passar o resto do tempo sem essa extensão que nos impuseram. E agora? Brecamos sem as selfies, sem as postagens, as cuscuvilhices da vida dos outros, os likes que nada nos dão? Será? Vamos experimentar? Talvez a morte não seja certa, porque afinal, apenas há uns anos atrás, era dispensável.

Mudar o mundo. Sensibilizar, consciencializar, fazer sentir e fazer pensar. Tocar no coração e na alma e mostrar que a vida é bonita. Reciclar para ajudar o mundo a crescer. Pensamentos, palavras, objetos, sentimentos.
Todos temos algo por dizer, algo para mostrar ao mundo e algo que fazer por aqui, no tempo efémero que a vida nos dá. Resta-nos saber como expressar o que temos cá dentro, porque o que temos a dizer já nós o sabemos desde sempre.
Sabem aqueles sonhos de menino, em que queremos ser heróis do mundo, salvar donzelas em perigo ou usar varinhas de condão para espalhar a magia? É precisamente isso. Ainda tenho esse modo de ver o mundo, ingénuo e inocente. Ainda acredito que posso espalhar magia por aí e salvar donzelas - e cavalheiros também. Acho que é isso que tenho andado a fazer.
O mundo que me perdoe se o desiludo com estes sonhos de espalhar magia numa varinha de condão, mas quero mudá-lo para melhor, para o mar de rosas que a vida é e que toda a gente diz que não.


Desde pequeninos que nos ensinam que temos que ir à escola para aprender, e para um dia conseguirmos um bom emprego e sermos alguém na vida.
Aprendemos que temos que respeitar os mais velhos e que temos que ter maneiras à mesa. Que temos que juntar muito dinheiro para termos uma boa casa, que temos que encontrar alguém com quem casar e ter filhos. Que se não for para ser senhor doutor ou engenheiro, então de nada servirá outro percurso. Que temos que andar informados sobre as catástrofes que existem pelo mundo fora, lendo os jornais ou vendo o noticiário todas as noites, mesmo depois de um dia cansativo. Que temos que saber cozinhar a sopa da avó e ter cuidado para não usarmos vermelho nas unhas ou no batom, não vão eles pensar que a mulher é uma oferecida. Embora isso, já tenha sido noutros tempos.
Aprendemos que temos que respeitar os mais velhos e que temos que ter maneiras à mesa. Que temos que juntar muito dinheiro para termos uma boa casa, que temos que encontrar alguém com quem casar e ter filhos. Que se não for para ser senhor doutor ou engenheiro, então de nada servirá outro percurso. Que temos que andar informados sobre as catástrofes que existem pelo mundo fora, lendo os jornais ou vendo o noticiário todas as noites, mesmo depois de um dia cansativo. Que temos que saber cozinhar a sopa da avó e ter cuidado para não usarmos vermelho nas unhas ou no batom, não vão eles pensar que a mulher é uma oferecida. Embora isso, já tenha sido noutros tempos.
A própria sociedade hoje em dia, ensina-nos que temos que sobrevalorizar as aparências e fazer delas prioridade. Que por pouco dinheiro que tenhamos só nos vamos encaixar na sociedade se tivermos a última gama em smartphones e se nos vestirmos segundo o que se usa naquela determinada semana. Que não podemos ter pêlos à vontade - não, nem mesmo os homens - senão somos considerados australopitecos. Que podemos ter filhos à vontade de pessoas diferentes e que podemos casar uma dúzia de vezes. Que o descarte é natural, seja de pessoas, animais, roupas ou até a essência.
O mundo está a ruir, e nós também. A dor nas costas é muita segundo o peso das escolhas que fazemos a cada momento. Somos "obrigados" a escolher um curso superior assim que saímos do secundário, não vão os anos passar depressa demais e tirar um curso aos 30 já é loucura. Assim como somos "obrigados" a exercer o papel de clones da sociedade, de toda a gente ser como toda a gente, e nem uma ponta de coisa diferente.
É a era do sufoco, das mãos em volta da garganta sem deixar que respiremos, não vamos nós fazer escolhas erradas e desiludir o mundo.

O amor às plantas. A todos os organismos vivos que vivem pelo sol vagarosamente e se alimentam de energias, são pedaços de natureza incríveis, que nem todos compreendem, como eu. Até agora.
Quando era criança, sempre vi que toda a senhora tinha em casa plantas infindáveis que nem dava para se ver o que as janelas queriam mostrar. Eram vasos em cima de vasos, folhas de todos os tons de verde e, algumas, chegavam a ser muito maiores que eu. Quando já não havia espaço para colocar vasos no chão, olhava para cima e lá estavam mais, vasos suspensos! - A sério? - Pensava eu. Embora os achasse bonitos. E ainda, assim que saía de casa, lá estavam mais vasos pelas escadas abaixo. Para quê tantos?
Foi uma pergunta que me ecoava conforme ia crescendo: porquê ter plantas? E porquê tantas?! Na minha cabecinha olhava para elas como se fossem apenas uma jarra para enfeitar, uma vez que elas não se mexiam, não faziam qualquer som, não serviam para nada. E, como todas as crianças, chegava a arrancar bocadinhos para brincar, até que a minha avó me dizia "Não faças isso, filha! As plantinhas sentem e choram." Eu ficava naquela a olhar para elas do género "Ai é?". Assim que a minha avó me via a arrancar bocados das plantas, passava com as mãos pelas folhas devagar como quem faz festas a um gato e falava com elas. Falava sempre com elas. Cantava-lhes canções também. E podia passar manhãs e tardes inteiras de volta delas. Até que a certa altura também me arrastava para a tarefa e eu achava tudo aquilo uma seca.
A minha mãe sempre teve plantas, na sala e na cozinha, e tapavam maior parte da luz. Eram enormes e eu não lhes achava piada. Sobretudo quando ela entrava em pânico cada vez que íamos de férias e tinha que arranjar alguém para ficar a cuidar das plantas. Não podia brincar descansada, porque se acabasse por ir contra as plantas sem querer - eu ou qualquer objeto voador não identificado - a casa ia abaixo e a minha mãe chateava-se a sério! Tudo isto me parecia exagerado, até quando a minha tia fazia anos. Ao invés de oferecermos uma prenda gira e interessante, lá ia a minha mãe procurar bonsais comigo às lojas - sempre que não eram bonsais teria que ser outra planta qualquer -, como se os parapeitos das janelas fossem infinitos e coubessem lá todas as plantas possíveis. E sim, até hoje, o parapeito da janela da minha tia está atolhado de plantas, mas agora já percebo o porquê.
Há coisa de um pouco mais de dois anos, juntei-me com uma pessoa que é amante da natureza e que gosta imenso de plantas. Na altura fiquei do género "ok, a sério? Só me faltava mesmo mais alguém obcecado por plantas.", mas nós mudamos, certo? E é essa a magia da coisa, a vida vai-nos mostrando o que não compreendemos et voilá, passamos a adorar algo que durante a vida toda não gostávamos por não compreender.
Aprendi a mexer na terra, para apoiar os gostos e interesses do meu namorado, e não me mostrei convencida mas até estava a gostar! Plantei as minhas primeiras plantas - foram sebes - e vi-as crescer ao longo do tempo, e senti-me como uma mãe. Comecei a habituar-me a ir a viveiros e às feiras e mercados procurar plantas e árvores. Podia escolhê-las à vontade, se fosse para cuidar delas. Depressa se tornou hábito irmos às livrarias comprar livros de agricultura, horticultura biológica, jardinagem e coisas do género. Até eu começava a gostar de ir para a secção de livros técnicos e procurá-los.
Sem querer, e sem dar muito por ela, comecei a perceber um bocadinho de plantas e a olhar para as plantas que as pessoas tinham em casa. Reparo nas plantas quando passo pelos parques e tento sempre saber quais são. Hoje, eu e a minha cara metade vamos muito ao mercado e fazemos um esforço enorme para resistir a não trazer de lá outra erva aromática para a coleção que se encontra enorme na varanda dele.
No entanto, não acho piada às pessoas que vão à florista encomendar buquês. Tudo bem em oferecer bonsais, e outras plantas em vasos bonitos, mas flores que são colhidas e apenas estão vivas durante pouco mais de uma semana não me faz sentido. É natureza morta.
Acho que me tornei, sem querer, numa apreciadora de tudo o que provém da natureza, enquanto que antes não percebia esse mundo. Todo o ser humano sente necessidade de estar em contacto com a natureza - senão agora, um dia -, e ter plantas é mais um bocadinho de magia que podemos ter em casa, pedaços de provas de que existem coisas bonitas de se ver e que não têm explicação.
ps. Por favor, não colham as flores. Elas pertencem à natureza e não a uma jarra. Se gostam delas, deixem-nas estar. Se por ventura queriam mesmo mesmo mesmo aquela flor na vossa casa, comprem sementes e plantem num vaso, terão imensas cheias de vida que podem durar anos.

Arrumar a bagagem. Juntar tudo o que era de ontem e colocar de parte, para desocupar. Varrer o nosso espaço dos medos e receios e arrumar as prateleiras do nosso coração. Tirar as coisas que não nos fazem falta das gavetas da mente e limpar o pó aos sonhos que temos em nós.
Ontem, tudo fazia sentido: a camisola que trazia vestida, a secretária organizada, os livros arrumados por ordem, o meu pequeno-almoço preferido de todos os dias, a música que oiço sempre no autocarro, a forma como arrumo os sapatos, a maneira como encaro as situações. Bem, vocês estão a entender.
Hoje, parece que olho para trás e não me reconheço: não me apetece vestir a mesma coisa que vestia antes, tenho andado a gostar de ter os livros espalhados pelo quarto e a secretária num caos (a condizer com o meu dia-a-dia). Ultimamente, tem-me andado a apetecer comer panquecas ao pequeno-almoço em vez de torradas, descubro músicas novas todos os dias, tenho andado a pensar em dar as coisas que não uso e questiono-me acerca do modo como vejo o mundo. Caraças, já não sou a mesma pessoa. E eu sinto o meu corpo e toda a minha alma a gritar para que algo mude.
Antes, só vestia a melhor camisola de lã quando achava que iria ser um dia especial, assim como os sapatos mais bonitos ou brincos ou outra coisa qualquer. Agora só me apetece vestir tudo o que tenho de melhor todos os dias, e arranjar-me para mim própria e andar o mais confortável que conseguir. Antes, tinha um apego avassalador às coisas pelo significado que têm em diversas fases da minha vida (que ainda não está totalmente ultrapassado) mas o pensamento é: se eu não uso, só está aqui a ocupar espaço. E não, não se deita nada fora, dá-se a quem precisar. Antes, fugia dos romances a sete pés, achava-os lamechas e pirosos, agora só ando à procura de história de amor pelas estantes das livrarias. Antes, via que queria tudo feito, agora, só me apetece criar tudo aquilo de que preciso. Antes, evitava o chocolate mais do que qualquer outra coisa, agora tenho um desejo tão grande que já nem quero saber.
Há uma voz na nossa cabeça, é a nossa própria voz, a que temos realmente que aprender a ouvir. Não me importo se ninguém concordar comigo, ou se dizem que o que faço ou deixo de fazer é irracional - e ainda bem, porque desta vez eu só quero sentir e seguir a minha intuição. Sabem aquela frase cliché "faz mais o que te faz feliz" ? É, estou a seguir o conselho.
Tenho vivido em prol do que me vem à cabeça no momento. Sem precipitações - nem tanto. Estou a mudar, e muito, e o mais assustador é que estou a dar por ela. No entanto, quero ter a certeza de que estou a criar-me e a evoluir da maneira que mais me faz sentido. Como é que isso se faz? Fazendo o que nos der na real gana e ouvindo o que nós próprios nos temos a dizer.
Ah! Já agora, passem por aqui e vejam o que a Vânia vos tem a dizer sobre esta coisa de mudar sem razão. ❤


Serve lembrar que há pessoas bonitas por aí. Muito bonitas. Tão bonitas que, quando as encontramos, é inevitável a ligação que estabelecemos instantâneamente e sem notar. É como se fosse o amor à primeira vista, mas sem a parte do romance mas sim amizade. Às vezes pensamos que estamos sozinhos, que não existe pessoa no mundo que se encaixe em nós, que não há ninguém a passar pelo que estamos a passar, que nunca ninguém irá compreender o que sentimos à flor da pele. Depois existem os pequenos momentos e os tropeços, os verdadeiros acasos da vida, em que cai um anjo no nosso caminho, por muito breve que seja, e que nos dá um abraço e nos aconchega o coração com tudo o que tem, sem notar. Anjos. Por toda a parte. Sem percebermos. Damos por ela, quando viramos costas e seguimos o nosso caminho de novo. Sentimos o peito aconchegado, o coração quentinho e a ternura a percorrer-nos o sorriso. Todos os anjos nos passam ao lado. Andam ao nosso lado. Aparecem-nos à frente com a mesma efemeridade com que desaparecem. E nós, sem notar.
Mas é por isso que é tão bom, encontrar um anjo e deixá-lo tomar a nossa alma com o que tem de melhor. Quando não notamos, é a altura em que a mente se desliga, e deixa que o coração sinta na sua enorme plenitude.

Há pessoas que nos fazem pensar no quão felizes somos. Há situações que nos fazem colocar a mão na consciência e refletir se o que nos acontece será mesmo o pior deste mundo, ou se é apenas uma tempestade num copo de água. Há histórias que nos fazem acreditar que temos o poder - sim, o poder - de fazermos o que queremos da nossa vida, e que os sonhos não são apenas contos de fadas. Há gente tão feliz com uma história tão triste, e nós por vezes andamos tão deprimidos com uma vida tão boa. Os altos e baixos existem, para que se aprecie o bom e o mau da vida, tal como as fases da lua e o pôr e nascer do sol. Somos maioritariamente ingratos e egoístas. A sociedade mudou tanto nos últimos anos que gastamos a nossa atenção e o nosso tempo com aparências, o que nada acrescenta ao nosso futuro. Há coisas tão simples que ignoramos. Há seres que só vivem de pequenas coisas, e que dessas pequenas coisas são felizes. Há gente que vive de tanto, e que de terem tanto querem mais, que parece que nunca chega.


É um crescer constante. Não o chamo de diário, porque acho esse nome demasiado lamechas para chamar a isto. Mas é, sem dúvida, um descarregar de pensamentos e opiniões, um rascunho do que acho do mundo, e um cofre onde guardo o que sou no momento. Às vezes escrevo, outras vezes não, mas não deixo de o fazer. O bom disto tudo, é que me permite escrever no momento em que estou com as emoções à flor da pele, e guardá-lo para depois partilhar esta melodia que me quer sair do peito.
Cada vez mais vejo que há gente que perde um pouco do seu tempo, e que abre este meu cofre e me lê, e estou grata por isso, porque lhes mudo a vida por um bocadinho que seja, pela partilha de palavras e por este abrir de cortinas que é o blog, relativamente à mente da pessoa que escreve.
E isto por aqui é como um jardim, em que vou plantando as sementes conforme me apeteça, nem penso na altura adequada para o fazer, quando sinto que o quero faço-o, não é assim que crescem as mais bonitas flores?
Não há cá ciências nem planeamentos, há toda uma liberdade em mim que me permite ir escrevendo conforme vá vivendo, conforme eu queira e como eu me sinta, e é isto que é bom na vida.
Reescrever não é para mim. Não consigo. Perco a essência do texto. Ou o escrevo conforme me vai na alma no momento, ou se o deixar depois já não vale a pena. É como os amores, eu acho.


Não sei se já ouviram a frase "nem parece que estás na faculdade". Cada vez mais tenho-a ouvido, vindo de pessoas que se nota que não percebem da essência da coisa e que estão a dizer uma blasfémia para nos rebaixar, ficando pasmadas a olhar como se fossemos um bicho de sete cabeças. Porquê tanto choque, minha gente?
Já estamos acostumados aos ditos rótulos "magra", "gorda", "bonito", "feio", e por aí adiante. Mas parece que agora o facto de estudarmos num curso superior também nos coloca um rótulo na testa "eu sei tudo e mais alguma". Ora, os estudantes universitários dedicam muito tempo ao estudo e aos trabalhos académicos, não de igual forma, porque depende do curso, se a pessoa trabalha ou não, entre outras coisas - mas também não é nada do outro mundo, eu acho que as pessoas exageram um pouco, ninguém morre se ficar acordado até tarde para acabar um trabalho porque não o quis adiantar antes ou porque não teve tempo por outras circunstâncias, o ritmo é acelerado, sim, mas nada a que não se habitue (parece que às vezes as pessoas se esquecem que também ficam acordadas até tarde a ver séries e na ramboia, mas no outro dia 'tá tudo bem) - mas isto não quer dizer que a pessoa saiba tudo e não cometa erros só porque é estudante. Ninguém se está a graduar em conhecimento geral.
No entanto, o que as pessoas esperam é que tenhamos a resposta a tudo na ponta da língua e que não cometamos erros banais digno de quem tem a cabeça no ar (como eu). O facto de estudar numa escola superior não me dá o dever de saber tudo sobre tudo e desenvolver longas conversas patriotas à mesa, nem de não me esquecer de coisas importantes ou de não trocar isto ou aquilo por falta de atenção. Assim como quem não é estudante universitário não tem que ser automaticamente rotulado como "burrinho" ou "sem futuro".
Eu não sei o que vai na cabeça desta gente.


Não sei se vocês já chegaram lá, mas estou naquela fase da minha vida em que não sei o que ando a fazer. Há fases em que nos questionamos acerca de todo o nosso conceito de existência enquanto seres humanos neste mundo - acerca do que queremos fazer, que curso escolher, se esse curso vai ter saída profissional, que emprego se adequa minimamente a nós e ao que queremos fazer durante muito tempo da nossa vida, entre outros (porém estes são as questões que nos fazem a cabeça em água).
Eu adoro estudar. Admito e vejo todo o potencial nesta fase de estudante universitária, no entanto não digo que isto de ser estudante a tempo inteiro - ainda para mais para quem trabalha também - seja fácil porque não é. Ajuda se realmente gostarmos do que fazemos e se isso nos fizer levantar da cama de manhã, por muito que custe. Mas acho que a dada altura, até do que realmente gostamos temos dúvidas. O que vos posso dizer é que é completamente normal. É bom questionarmo-nos em relação ao que fazemos, estamos em constante mudança e, se hoje já não gostarmos do que gostávamos ontem é normal, temos tempo para nos conhecermos a nós próprios e aprender o que, inconscientemente, no envolve e fazemos por gosto (e muitas das vezes até por hobbie). Porém não é saudável chegarmos à conclusão de que já não gostamos daquilo que julgávamos gostar para o resto da vida, mas que hoje já não nos faz sentido, e continuarmos a lutar por isso - no entanto não tomem decisões precipitadas! - estão a ver o estado da minha cabeça nos últimos tempos?
Vou-vos pôr a par da situação: no secundário eu não sabia o que queria, sabia que não tinha queda nenhuma para matemática e tudo o que envolvesse números (lá se foi o sonho de ser veterinária!). Os meus pais tomaram o partido de me colocar num curso profissional com bastante saída já que, a uma semana do término das candidaturas, eu ainda não me tinha decidido: Comunicação, Marketing, Relações Públicas e Publicidade. Foi interessante e com isto pensei que talvez devesse ficar ligada ao marketing futuramente para construir o meu percurso profissional. Não quis ficar pelo ensino secundário. Mais tarde descobri que design não tinha assim tanta matemática como eu pensava (trabalhei em design gráfico no secundário) e agarrei essa oportunidade de me fazer valer numa área de artes - coisa que sempre quis, mas que nunca julguei ter jeito. Entrei na Universidade Lusófona em Lisboa e adorei todo o percurso que fiz. Em todas as cadeiras a minha reação era "uau, eu adorava explorar isto naquela disciplina favorita do secundário" - e em breve todas as cadeiras seriam as minhas cadeiras preferidas - tirando geometria descritiva. Descobri no segundo ano que já estava farta de fazer design gráfico, e que era muito mais giro explorar os materiais e fazer projetos relacionados com produtos, então quis seguir o ramo de design de equipamento. No entanto, a coisa deu para o torto e a direção da coordenação mudou e, entre outras coisas más que fizeram, a vertente de equipamento no curso foi eliminada. Foi então que desisti daquela faculdade e mudei para a Faculdade de Arquitetura em Lisboa, onde estou a estudar atualmente. E eu lidei com a situação como toda a gente: escola nova, pessoas novas, começar do zero. Até cheguei a ir às praxes para me integrar mais, e adorei! Mas é chato quando estudamos durante 2 anos algo que adoramos e que, no entanto, nos vemos a estudar novamente as mesmas coisas (mesmo com equivalências), com novos métodos de ensino e de trabalho, num ambiente desconhecido, fora da nossa zona de conforto. Demora a ingerir tudo isto e a processar cá dentro tudo o que está a acontecer e, que vou ter que estudar novamente durante 3 anos. Ou seja, os outros 2 anos em que estudei design na minha 1ª faculdade não foram em vão, mas também descobri que graças ao facto de não me terem aceite algumas equivalências, há cadeiras que não vou conseguir fazer no tempo que tinha em mente. Então, mais 3 anos de licenciatura, aqui vamos nós!
É difícil. Eu gosto disto, gosto mesmo. Não estou a ver curso mais criativo e que nos dê mais livre trânsito do que este, nisto tive sorte. Porém, é fazer tudo de novo, quando hoje, se não tivesse mudado de faculdade, já estaria no último ano. E poderia continuar a tirar pós-graduações, mestrados, o que quisesse.
A vida troca-nos as voltas, e é difícil aceitar as voltas que ela nos dá, porque nunca vêm com aviso prévio e porque nos levam sempre, ou quase sempre, na direção oposta. Mas é por isso que somos o que somos hoje, pela escolha de que direção tomar quando a vida nos troca as voltas.
Ando em constante fase de aceitação, e isso custa, é difícil, e muitas vezes já nem tenho forças para me levantar da cama, nem as arranjo. Fico a vasculhar nas gavetas da minha cabeça algo que me dê ânimo para sair da cama e sair porta fora pronta para enfrentar o mundo.
Às vezes (muitas vezes) preciso de motivações extra, em especial por parte das pessoas, remexo em trabalhos antigos feitos por mim, lembro-me do meu objetivo, o porquê de querer este curso e em como quero ser útil e mudar o mundo à minha volta. Tudo isto parece tão cliché mas ajuda. O que também é cliché, é o facto de, quando estamos em desespero, completamente perdidos e desamparados, não nos lembramos de seguir os nossos próprios conselhos. Tudo é uma questão de tempo.

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