bem estar
Acho que me esqueci de mim.
"Acordei, vesti-me com uma pressa danada, nem me olhei bem ao espelho. Comi meio a dormir meio acordada. Comi o de sempre, algo com café, que é para dar energia para enfrentar o dia que vem aí. Olho para o relógio vezes infinitas, não vá o tempo fugir sem eu dar por ela - e foge. Pego na bagagem de todos os dias, que me pesa incessantemente, para além dos pesos que já carrego dentro de mim, e saio para a manhã nua e calma, mas que eu não tempo para sentir. Nem dou conta se está frio ou se não está frio, mesmo se estiver, tenho tanta pressa que me esqueço. Tenho que apanhar os transportes para não chegar atrasada, tenho que me fazer ao caminho para não apanhar trânsito de outros tantos que estão como eu. Dou o bom dia a toda a gente, com o sorriso matinal que consigo arranjar. Sujeito-me às minhas tarefas de todos os dias, mesmo que não goste do que faça, já nem sei distinguir. Tento ser amável para toda a gente, mesmo que esteja de mau humor e só me apeteça hibernar, eu esforço-me. Ando numa luta contra o relógio, como sem dar muita importância ao que realmente como, e volto para outra volta de tarefas. Ser amável. Sorrir. Olhar para o relógio. Saio já à tardinha, e reparo que só o facto de me ter safado da parte chata de hoje já me mete mais alegre, e reparo que as outras pessoas também estão como eu. Chego a casa, e atiro o peso para cima do sofá. Permito-me parar por 5 minutos. Ok, agora está na hora de pensar o que vai ser o jantar. Preparo o jantar sem grandes pormenores, mais a discutir com os ingredientes do que a fazer um poema culinário. Sorrio para a minha família. Por vezes descarregamos uns nos outros, tal é o peso do dia a dia que ainda trazemos. A casa é sempre uma confusão, barulho aqui, barulho ali, televisão alta, luzes todas ligadas. Tomo um duche para aliviar um pouco a pressão que os dias me trazem, visto o pijama e mergulho na cama. Amanhã farei tudo novamente."
Esqueci-me de me namorar ao espelho, de fazer o meu pequeno-almoço preferido, de me permitir sentir a calma de cada manhã, de ser tão amável comigo como me esforço para ser com os outros. Esqueci-me do que é viver sem olhar para o relógio. De viver devagar. Esqueci-me de saborear cada refeição que ofereço ao meu corpo. Esqueci-me de me perguntar o que gostaria de fazer para ganhar a vida, no que gostaria de despender a minha energia. Esqueci-me de fazer qualquer ritual de relaxamento - tomar um banho quente, ler, dormitar, cozinhar com amor. Esqueci-me de viver o presente com a minha família. Esqueci-me.
Identificas-te com este texto? Também te esqueceste?
Quando é que abrandas? Como é que sabes quando tens que abrandar? Qual foi a última vez que te permitiste abrandar?
O nosso corpo, este nosso templo desde sempre, dá-nos sinais preciosos e que nem sempre conseguimos ver e perceber. O facto de andarmos fatigados, com dores de cabeça, com dores musculares, sem conseguir pensar, são sinais dos mais simples e comuns de que precisamos de abrandar e respirar por um bocado. De apanhar um pouco de sol e de fechar os olhos e sentir o vento. Às vezes é só isso.
Muitas das vezes ficamos com um certo sentimento de culpa por querermos cuidar de nós, por querermos prescindir de pelo menos 5 minutos do nosso dia para nos voltarmos para nós e fazermos o que sentimos que temos que fazer, em especial as mães. Mas sabem que mais? Se não abrandarmos, não estamos a respeitar a nossa própria vontade, nos quais temos que ser os primeiros a respeitá-la, não estaremos a recarregar toda a energia que desgastamos durante horas e horas, dias e dias, não estaremos a dar ouvidos aos sinais que o nosso corpo nos transmite, não estaremos assim nunca no nosso melhor para que enfrentemos o mundo com a energia revitalizada, com o nosso eu intenso de boas energias, vontade e alegria.
O nosso corpo, o nosso templo, dá-nos todos os sinais acerca do que fazer a seguir. E isso é maravilhoso. Vamos fazer um esforço para nos reconectarmos com ele? Com a nossa essência. Com aquilo que realmente precisamos para estarmos bem.
A sociedade impôs o padrão de que temos que trabalhar durante X horas diárias, sem parar. Porque se pararmos é sinal de preguiça. Não é. E não trabalharmos durante as horas implícitas ou termos um emprego flexível também não é preguiça. Esticarmo-nos no sofá, dormir até mais tarde, trocar as tarefas domésticas por uma tarde de leitura, entre tantas outras coisas que fazemos e que somos todos julgados a seguir, não é preguiça! Porque é que temos que esperar pelo fim de semana para descansar? Porque é que não podemos fazê-lo todos os dias?
Aproveita e reconecta-te com a tua essência, com a tua vontade, com o teu corpo. Ouve os sinais que te são transmitidos todos os dias e que tens ignorado. Abranda um pouco. Está tudo bem. Todos precisamos.

Tenho andado tão focada em mim, que pensei em partilhar os rituais que me têm curado aos poucos e me têm feito sentir muito mais em paz, muito mais eu. A batalha diária de construírmos o nosso ser interior, de nos livrarmos de qualquer energia que nos afeta, de qualquer toxicidade, de florescermos, não é algo que aconteça da noite para o dia, não é algo que dê frutos de um dia para o outro. É algo devagar e subtil, ao seu tempo, ao seu ritmo, como deve ser. Aprender a ser paciente, a ter equilíbrio, a calar o mundo e ouvir o eu, a ter calma e a saber respirar e sentir. No fundo aprendemos tudo outra vez, nascemos de novo.
Encaro isto como uma semente de uma flor bonita, a semente que coloco na terra é a da coragem e força de vontade de começar, é importante regá-la, todos os dias, com persistência, carinho, coragem uma vez mais. Não perder a calma e saber respirar é essencial. Não vamos conseguir estar aptos a enfrentar o mundo a toda a hora, e está tudo bem. Há alturas em que desabamos, outras em que só respiramos confiança. Faz parte do processo.

No fundo, tudo o que estou a aprender é a calar o mundo e a ouvir-me a mim. Acho que é o mais difícil. Somos influenciáveis, inconscientemente temos a necessidade de nos sentirmos aceites por entre as pessoas que nos rodeiam, o ser humano é mesmo assim. A família, os amigos e pessoas mais próximas também constroem o nosso ser, desde sempre, tudo o que somos devemo-lo, também, às pessoas que estão e que passam por nós, deixando aprendizagens boas ou más.
Muitas vezes achamos algo errado, questionamo-nos acerca de certa atitude ou ato ou sentimento. Mas, por as pessoas em redor o fazerem, o acharem correto, não determina de que tu, como pessoa individual, não tenhas opinião própria, mesmo que vá contra os princípios e ensinamentos que tiveste durante a vida inteira. É isto que é difícil, desfazeres-te de uma identidade que criaram para ti, por ainda não teres a autonomia de o fazeres sozinho, de o pensares por ti. É por isso que se diz que as pessoas crescem, porque deixam de depender dos outros, deixam de seguir os passos de alguém e começa a caminhar sozinhos, desenvolvem opinião própria e vontade própria.

Desde que me sinto crescer aos poucos, que me sinto presa ao que toda a gente acha, toda a gente diz, toda a gente pensa, toda a gente faz. Foi preciso ganhar muita coragem para enfrentar o mundo e querer crescer como deve ser, como eu quero, como eu penso, como eu acho. Tudo isto pode durar algum tempo, e realmente, quando não estamos bem, as coisas dão para o torto e a vida mostra-nos que, primeiro, a transformação vem de dentro.
Não podendo mudar algumas mentalidades em redor de mim, e respeitando-as como gostaria que respeitassem a minha, tenho aprendido a desprender-me de energias que me intoxicam, que me puxam para baixo, que me fazem virar costas ao caminho que pretendo seguir. Não é necessário gritaria desnecessária, nem gastos de energia a querer contrariar o outro, deixemos estar, entra por um ouvido e sai pelo outro, o orgulho não se deve sobrepor ao nosso bem estar interior. Somos muito mais. Daí dizer que, primeiro, calamos o mundo para nos ouvirmos e, depois, tudo se tornará mais claro.
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